Provedores vs Anatel: Será que é errado limitar a transferência de dados?

Gostaria de trazer o problema do limite na transferência de dados sob um ponto de vista técnico, para tentar acrescentar mais à discussão.

Provedores vendem mais banda do que podem entregar. O objetivo deste texto é mostrar que isso é necessário para que o negócio seja viável. Mas primeiro preciso explicar, de forma simplificada, como a internet funciona.

A internet nada mais é do que vários computadores ligados em rede. Essa rede possui várias ramificações, tipo uma teia, e cada nó dá origem a outros nós, e por aí vai. Existem cabos oceânicos ligando os continentes por todo o planeta, e é dessa forma que você consegue, por exemplo, abrir um site que está hospedado nos Estados Unidos.

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Esses cabos não foram colocados lá pelo governo, mas sim por empresas privadas, através de consórcios. Nesse site aqui você consegue ver a lista dos que existem no Brasil, e quais são as empresas que os colocaram lá.

A internet brasileira é formada por várias conexões entre computadores, por todo o país. Tudo também ligado em forma de teia, feito através de acordos de cooperação entre empresas. As vezes quando você acessa a Globo.com, por exemplo, você sai pela GVT, passa pela Embratel e desemboca na rede da Globo.com. Existe até uma forma de ver por onde os dados passam, é bem legal. Mas aí já está ficando um pouco técnico demais. Vamos agora à relação entre provedores e clientes.

Quando você contrata internet, esse “link de internet” nada mais é do que o acesso a um cabo que vai levar informações do seu computador para um Datacenter do provedor, e o mesmo precisa “rotear” os dados para outros provedores, que por sua vez passam os dados a diante até que chegue no destino desejado (um website, por exemplo). Assim como os seus clientes, provedores também tem de pagar para acessar a internet e repassar as informações que estão saindo e chegando no seu computador.

Os cabos que interligam essa “teia” possuem limitações físicas de velocidade. Portanto, quando um provedor vende um link de 30Mbits/s (vulgo 30 mega) a 1000 clientes, se eles utilizarem a banda toda ao mesmo tempo, seria necessário que esse provedor tivesse um cabo que o ligasse a essa “teia” com a capacidade de transmissão de 30.000Mbits/s. É até possível, mas estamos falando de apenas 1000 clientes. Um grande provedor na cidade de São Paulo provavelmente possui centenas de milhares de clientes. Ou seja, é tecnicamente impossível cumprir essa promessa. Mas como pode? Calma, vou explicar.

Na verdade, as pessoas não usam toda a velocidade de suas conexões o tempo todo. Quando você contrata uma internet de 30Mbits/s, isso não quer dizer que tudo o que você faça será nessa velocidade. Na verdade você está pagando por um link de até 30Mbits/s. De fato, a única forma de se utilizar toda a velocidade é fazendo downloads de arquivos grandes, streaming de vídeo, torrents, etc. Vou tentar esclarecer melhor utilizando um exemplo.

Suponhamos que o provedor “A” tenha um link de 10.000Mbits/s para distribuir entre 10.000 clientes. Se todos os clientes estivessem assistindo Netflix ao mesmo tempo, eles só teriam como utilizar 1Mbit/s cada um. Se apenas 5.000 desses 10.000 estiverem assistindo ao mesmo tempo, cada um poderia utilizar 2Mbits/s. E por aí vai.

Até bem pouco tempo atrás, antes da era Netflix, a maioria dos usuários de internet residenciais não utilizavam mais de 10-15% da velocidade contratada, tendo apenas alguns picos em certos horários. Isso fazia com que os provedores pudessem atender mais clientes sem ter que aumentar proporcionalmente a velocidade do seu link para a “teia”. É por isso que a Anatel diz que um provedor só é obrigado a garantir 10% da velocidade que vende. Isso fica claro quando você vê a diferença de preço entre internet empresarial e residencial. A empresarial é mais cara simplesmente porque em uma empresa utiliza-se uma porcentagem maior da banda contratada quando comparamos com uma residência. Isso porque uma empresa geralmente têm várias pessoas usando ao mesmo tempo, enquanto residências estão vazias em horário comercial.

Os provedores possuem soluções para empresas que precisam da garantia de 100% de velocidade o tempo todo. Estes são chamados de “links dedicados”. Um link dedicado é caríssimo, pelas razões explicadas acima. A última vez que pesquisei, um link de 5Mbits/s custava por volta de R$1.000 por mês.

Em tempos de Netflix, onde as residências estão consumindo uma maior porcentagem da banda contratada, os provedores estão em apuros. Se eles comprarem mais conexões com a “teia” para suprir a necessidade de todos os clientes que baixam filmes e assistem Netflix, eles vão ter que aumentar bastante o preço da mensalidade, repassando o custo para o cliente. Mas aí vem o governo e cria regulações, dizendo que os provedores precisam vender internet a preços populares, ao mesmo tempo em que dificulta a competitividade com taxas altíssimas e controle de licenças. Sendo assim, os provedores possuem apenas 3 alternativas:

1) Aumentar significativamente o preço da internet – não é viável, imagina só se da noite pro dia a sua internet de 50 mega passa a ser de 1 mega pelo mesmo preço? Vai ser o maior panelaço da história

2) Reduzir a velocidade para 10% da banda após um limite de transferência de dados

3) Cobrar extra após um limite de transferência de dados, e cortar o acesso de quem não optar por pagar extra

A alternativa 1, como eu disse, não é viável. A alternativa 2 já tentaram, não sei se resolveu. Agora estão tentando a 3.

Espero que tenha ficado claro, sob um ponto de vista técnico, que a solução não é impedir que os provedores limitem a transferência de dados. Isso vai prejudicar apenas o cliente, que vai ter que pagar mais caro, ou ser enganado, ou ter um serviço de péssima qualidade.

A solução é informar a todos sobre real problema (explicado acima) e exigir que a Anatel favoreça mais a livre concorrência, reduzindo o custo para os provedores.

One thought on “Provedores vs Anatel: Será que é errado limitar a transferência de dados?

  1. Paulo, você só errou em uma coisinha fundamental em minha opinião, claro: O quê as pessoas precisam entender é que a ANATEL, bem como QUALQUER outro órgão regulamentador, precisar ser EXTINTO! O próprio Mercado, por meio de trocas voluntárias entre cliente e empresa, se encarregará de se ajustar às necessidades do consumidor e ponto. #MenosEstadoMaisMercado

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